Abolição da Escravatura: mudanças entre as edições

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== Contexto Histórico da Escravidão em Itajubá ==
== Contexto Histórico da Escravidão em Itajubá ==


A presença de africanos em Itajubá antecede a fundação da cidade. Já no século XVIII, existiu no município o [[Quilombo da Berta]], um local onde se refugiavam escravos fugidos de senzalas do sul de Minas e do norte de São Paulo. O bairro Berta (ou Aberta) no sul do atual município de Itajubá, junto à Serra do Pouso Frio e à Pedra Vermelha, era parte dessa área. O arraial das Anhumas, próximo à Berta, existia desde 1810 e pode ter sido iniciado no século XVIII por escravos fugidos homiziados na Berta.
A presença de africanos em Itajubá antecede a fundação da cidade. Já no século XVIII, existiu no município o [[Quilombo da Berta]], onde se refugiavam escravos fugidos de senzalas do sul de Minas e do norte de São Paulo. O arraial das Anhumas, próximo à Berta, existia desde 1810 e pode ter sido iniciado por escravos fugidos.


A população escrava em Itajubá cresceu significativamente ao longo do século XIX:
A população escrava em Itajubá cresceu significativamente ao longo do século XIX, segundo os censos e levantamentos da época:<ref group="nota">As estimativas de população escrava (1825–1876) são compiladas das obras de referência; os números específicos devem ser conferidos com as fontes primárias.</ref>
* 1825: 1.000 (estimativa)
* 1825: ~1.000 (estimativa)
* 1835: 1.712
* 1835: 1.712
* 1848: 2.104
* 1848: 2.104
* 1860: 2.982
* 1860: 2.982
* 1868: 3.021
* 1872: 4.275
* 1872: 4.275
* 1876: 4.496
* 1876: 4.496


Os livros de batizados de escravos no arquivo da Paróquia de Nossa Senhora da Soledade registravam os nomes dos senhores de Itajubá que possuíam escravos, incluindo o [[Padre Lourenço da Costa Moreira]], o fundador da cidade.
Os livros de batizados de escravos no arquivo da Paróquia de Nossa Senhora da Soledade registravam os nomes dos senhores de Itajubá que possuíam escravos, incluindo o próprio [[Padre Lourenço da Costa Moreira]].


== O Tratamento dos Escravos ==
== O Tratamento dos Escravos ==


Embora a cidade tenha se destacado por seu ato de libertação antecipada, as práticas desumanas contra escravos também ocorreram em Itajubá. Jornais do século XIX, anteriores a 1888, noticiaram atrocidades. Um fazendeiro chamado Manuel Custódio dos Santos, por exemplo, foi acusado de torturar um escravo chamado Clemente por ter comido um pedaço de cana, chegando a arrancar-lhe dentes com uma torquês. Apesar de um "Auto do corpo de delito" ter comprovado as denúncias, o fazendeiro e seu capataz foram absolvidos em um segundo julgamento.
Embora a cidade tenha se destacado por seu ato de libertação antecipada, práticas desumanas também ocorreram em Itajubá. Jornais do século XIX, anteriores a 1888, noticiaram atrocidades — como o caso do fazendeiro Manuel Custódio dos Santos, acusado de torturar um escravo chamado Clemente. As posturas municipais tratavam os escravos principalmente sob o ângulo da segurança pública.

As posturas municipais tratavam os escravos principalmente sob o ângulo da segurança pública, vendo-os como uma ameaça a seus proprietários e à população livre. A fuga ou o uso da violência por parte dos escravos não eram vistos como consequência de sua condição, mas como desvios de conduta. Escravos abandonados podiam ser classificados como "bens de evento" (gado solto e sem identificação), sujeitos a apreensão, avaliação e leilão, momento em que seriam declarados livres pela Câmara.


== O Processo Emancipacionista Local ==
== O Processo Emancipacionista Local ==


O movimento pela libertação dos escravos em Itajubá se alinhou com os movimentos nacionais gradualistas que buscavam a extinção da escravidão. Leis como a de extinção do tráfico (1853), a Lei do Ventre Livre (1871), e a libertação compulsória dos sexagenários (Lei Saraiva-Cotegipe de 1885) reacenderam o combate ao cativeiro em Itajubá. Em 1885, a Lei Saraiva-Cotegipe gerou grande entusiasmo, identificando 225 escravos sexagenários no município, número reduzido a 104 após descontos.
O movimento pela libertação dos escravos em Itajubá alinhou-se aos movimentos nacionais gradualistas (extinção do tráfico em 1850, Lei do Ventre Livre de 1871, Lei Saraiva-Cotegipe de 1885). O jornal "[[O Itajubá (jornal)|O Itajubá]]", redigido pelo [[Dr. Aureliano Moreira Magalhães]], combatia a servidão e incentivava manumissões.


Uma Comissão Libertadora foi organizada e a própria [[Câmara Municipal de Itajubá|Câmara Municipal]] aderiu ao movimento. Por proposta do vereador Joaquim Francisco Pereira Júnior, foi criado o '''Livro da Liberdade''' (ou Livro de Honra), encadernado em veludo vermelho e com dizeres gravados em ouro, destinado a registrar para a História os nomes dos abolicionistas.<ref name="livro">{{Citar livro|Armelim Guimarães|História de Itajubá|1987|168}} ''O Município de Itajubá''. 1915, p. 48.</ref>
Os abolicionistas itajubenses não confiavam apenas nas providências governamentais. O jornal "[[O Itajubá]]", redigido pelo [[Dr. Aureliano Moreira Magalhães]], combatia a servidão e incentivava manumissões. O jornal noticiava as alforrias concedidas voluntariamente pelos senhores em ocasiões festivas. Gestos filantrópicos de senhores libertando seus escravos eram frequentes. O Ten. Cel. Domiciano José Pereira, falecido em 1886, deixou em testamento a liberdade para seus 23 escravos. Autoridades governamentais também contribuíam financeiramente para a libertação.


Há indícios, porém, de que a motivação de parte dos fazendeiros estava ligada à defesa de sua propriedade e à antecipação de possíveis reações dos escravos, visando garantir a mão de obra e evitar abalos na ordem pública.
Uma Comissão Libertadora foi organizada e a própria [[Câmara Municipal]] aderiu ao movimento. Por proposta do vereador Joaquim Francisco Pereira Júnior, foi criado o '''Livro da Liberdade''' (ou Livro de Honra). Este livro, encadernado em veludo vermelho e com dizeres gravados em ouro, tinha a finalidade de registrar para a História os nomes dos abolicionistas, que àquela altura, segundo uma [[Armelim Guimarães]] em seu livro História de Itajubá, era todo o povo itajubense.


== O Marco Histórico: 11 de Março de 1888 "Cidade Luz" ==
Apesar de esforços emancipacionistas, há indícios de que a motivação dos fazendeiros para a libertação em massa estava mais ligada à defesa de sua propriedade e à antecipação de possíveis reações dos escravos, visando garantir a mão de obra e evitar abalos na ordem pública e prejuízos à lavoura. O movimento dos fazendeiros parecia buscar a abolição geral em prazo breve, possivelmente com indenização, e uma lei que obrigasse os vadios ao trabalho para suprir a falta de braços agrícolas.


O acontecimento mais célebre da história abolicionista de Itajubá ocorreu em '''11 de março de 1888'''. Dois meses antes da assinatura da Lei Áurea, os fazendeiros e senhores de escravos do município se reuniram e decidiram conceder '''gratuitamente''' cartas de alforria a todos os seus cativos.
== O Marco Histórico: 11 de Março de 1888 - "Cidade Luz" ==


Em solenidade em praça pública, a Municipalidade, por meio da Comissão Manumissora Municipal presidida pelo [[Cel. Joaquim Francisco Pereira Júnior]], declarou "extinto o regime da escravidão dentro dos muros do Município", seguido de desfile com banda de música e foguetes. O número de escravos libertados nesse dia é estimado em cerca de dois mil, segundo o Juiz de Direito Dr. Adolfo Augusto Olinto.<ref name="cidadeluz">''Comarca de Itajubá 1872–2022''. 2022, p. 86. {{Citar livro|Armelim Guimarães|História de Itajubá|1987|168}}</ref>
O acontecimento mais célebre da história abolicionista de Itajubá ocorreu em '''11 de março de 1888'''. Dois meses antes da assinatura da Lei Áurea, os fazendeiros e senhores de escravos do município se reuniram e decidiram conceder '''"gratuitamente"''' cartas de alforria a todos os seus cativos.


Este ato teve '''repercussão nacional''', sendo noticiado em jornais da Corte. O grande abolicionista '''José do Patrocínio''', no Rio de Janeiro, qualificou Itajubá de '''"Cidade Luz"'''. Itajubá teve a honra de ser a '''primeira cidade da Província de Minas Gerais a libertar todos os seus escravos'''.<ref name="cidadeluz"/>
Em uma solenidade em praça pública, a Municipalidade, por meio da Comissão Manumissora Municipal presidida pelo [[Cel. Joaquim Francisco Pereira Júnior]], com o assentimento de todos os proprietários, declarou "extinto o regime da escravidão dentro dos muros do Município". Este feito foi seguido de um "entusiástico desfile pelas ruas com banda de música e foguetes festivos".


== A Lei Áurea ==
O número de escravos libertados nesse dia é estimado em cerca de dois mil, segundo o Juiz de Direito Dr. Adolfo Augusto Olinto.


Em 13 de maio de 1888, a Princesa Imperial Regente Isabel sancionou a Lei nº 3.353, conhecida como Lei Áurea, que extinguiu a escravidão em todo o Brasil. Itajubá celebrou o acontecimento, com os jornais locais dedicando suas primeiras páginas à notícia.
Este ato humanitário teve '''repercussão nacional''', sendo noticiado em jornais da Corte como "Cidade do Rio", "Jornal Comércio", "Gazeta de Notícias" e "O Paiz". O grande abolicionista '''José do Patrocínio''', no Rio de Janeiro, qualificou Itajubá de '''"CIDADE LUZ"'''.


== Legado Pós-Abolição ==
Itajubá teve a honra de ser a '''primeira cidade da Província de Minas Gerais a libertar todos os seus escravos'''.


Apesar da abolição, a questão da indenização aos antigos proprietários persistiu. Em 1890, o Ministro da Fazenda Rui Barbosa ordenou a queima de documentos relacionados à escravidão. O "Livro da Liberdade", criado pela Câmara, permanece como documento histórico desse período.
== A Lei Áurea ==


Uma figura que representa a longevidade do impacto da escravidão foi [[Maria do Carmo Jerônimo]] (Carmo de Minas, 5 de março de 1871 — Itajubá, 14 de junho de 2000), ex-escravizada apontada por diversas fontes como a "última escravizada do Brasil" e uma das pessoas mais longevas já registradas. Libertada com a abolição, trabalhou por cerca de 60 anos para a família do historiador [[Armelim Guimarães]]. Sua idade (estimada entre 126 e 129 anos) não pôde ser comprovada por falta de registro civil de nascimento, o que a impediu de figurar no ''Guinness Book''.<ref>"[https://en.wikipedia.org/wiki/Maria_do_Carmo_Ger%C3%B4nimo Maria do Carmo Gerônimo]" (Wikipédia, com base em registros de batismo); "Ex-escrava mineira já havia pleiteado o título de mais velha do país", ''[https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2011/05/19/interna_gerais,228519/ex-escrava-mineira-ja-havia-pleiteado-o-titulo-de-mais-velha-do-pais.shtml Estado de Minas]'', 19 mai. 2011.</ref>
Em 13 de maio de 1888, a Princesa Imperial Regente Izabel sancionou a Lei nº 3.353, conhecida como Lei Áurea, que extinguiu a escravidão em todo o Brasil. Itajubá celebrou este acontecimento, com jornais locais dedicando suas primeiras páginas à notícia.

== Legado Pós-Abolição ==


== Notas ==
Apesar da abolição, a questão da indenização aos antigos proprietários de escravos persistiu. Em 1890, o Ministro da Fazenda Rui Barbosa, com apoio da Confederação Abolicionista, ordenou a queima de documentos relacionados à escravidão para evitar que servissem de base legal para indenizações, medida que teve continuidade com seu sucessor.
<references group="nota"/>


== Referências ==
O "Livro da Liberdade", criado pela Câmara Municipal de Itajubá para registrar os nomes dos abolicionistas, serve como um documento histórico deste período.
<references/>


[[Categoria:História de Itajubá]]
Uma figura que representa a longevidade do impacto da escravidão foi [[Maria do Carmo Jerônimo]], considerada a '''última escrava do Brasil''', que faleceu em Itajubá em 14 de junho de 1999, aos 129 anos.

Edição atual tal como às 10h33min de 3 de junho de 2026

A história da abolição da escravatura em Itajubá, Minas Gerais, é marcada por um acontecimento de grande relevância nacional, que lhe conferiu o título de "Cidade Luz".

Contexto Histórico da Escravidão em Itajubá[editar]

A presença de africanos em Itajubá antecede a fundação da cidade. Já no século XVIII, existiu no município o Quilombo da Berta, onde se refugiavam escravos fugidos de senzalas do sul de Minas e do norte de São Paulo. O arraial das Anhumas, próximo à Berta, existia desde 1810 e pode ter sido iniciado por escravos fugidos.

A população escrava em Itajubá cresceu significativamente ao longo do século XIX, segundo os censos e levantamentos da época:[nota 1]

  • 1825: ~1.000 (estimativa)
  • 1835: 1.712
  • 1848: 2.104
  • 1860: 2.982
  • 1872: 4.275
  • 1876: 4.496

Os livros de batizados de escravos no arquivo da Paróquia de Nossa Senhora da Soledade registravam os nomes dos senhores de Itajubá que possuíam escravos, incluindo o próprio Padre Lourenço da Costa Moreira.

O Tratamento dos Escravos[editar]

Embora a cidade tenha se destacado por seu ato de libertação antecipada, práticas desumanas também ocorreram em Itajubá. Jornais do século XIX, anteriores a 1888, noticiaram atrocidades — como o caso do fazendeiro Manuel Custódio dos Santos, acusado de torturar um escravo chamado Clemente. As posturas municipais tratavam os escravos principalmente sob o ângulo da segurança pública.

O Processo Emancipacionista Local[editar]

O movimento pela libertação dos escravos em Itajubá alinhou-se aos movimentos nacionais gradualistas (extinção do tráfico em 1850, Lei do Ventre Livre de 1871, Lei Saraiva-Cotegipe de 1885). O jornal "O Itajubá", redigido pelo Dr. Aureliano Moreira Magalhães, combatia a servidão e incentivava manumissões.

Uma Comissão Libertadora foi organizada e a própria Câmara Municipal aderiu ao movimento. Por proposta do vereador Joaquim Francisco Pereira Júnior, foi criado o Livro da Liberdade (ou Livro de Honra), encadernado em veludo vermelho e com dizeres gravados em ouro, destinado a registrar para a História os nomes dos abolicionistas.[1]

Há indícios, porém, de que a motivação de parte dos fazendeiros estava ligada à defesa de sua propriedade e à antecipação de possíveis reações dos escravos, visando garantir a mão de obra e evitar abalos na ordem pública.

O Marco Histórico: 11 de Março de 1888 — "Cidade Luz"[editar]

O acontecimento mais célebre da história abolicionista de Itajubá ocorreu em 11 de março de 1888. Dois meses antes da assinatura da Lei Áurea, os fazendeiros e senhores de escravos do município se reuniram e decidiram conceder gratuitamente cartas de alforria a todos os seus cativos.

Em solenidade em praça pública, a Municipalidade, por meio da Comissão Manumissora Municipal presidida pelo Cel. Joaquim Francisco Pereira Júnior, declarou "extinto o regime da escravidão dentro dos muros do Município", seguido de desfile com banda de música e foguetes. O número de escravos libertados nesse dia é estimado em cerca de dois mil, segundo o Juiz de Direito Dr. Adolfo Augusto Olinto.[2]

Este ato teve repercussão nacional, sendo noticiado em jornais da Corte. O grande abolicionista José do Patrocínio, no Rio de Janeiro, qualificou Itajubá de "Cidade Luz". Itajubá teve a honra de ser a primeira cidade da Província de Minas Gerais a libertar todos os seus escravos.[2]

A Lei Áurea[editar]

Em 13 de maio de 1888, a Princesa Imperial Regente Isabel sancionou a Lei nº 3.353, conhecida como Lei Áurea, que extinguiu a escravidão em todo o Brasil. Itajubá celebrou o acontecimento, com os jornais locais dedicando suas primeiras páginas à notícia.

Legado Pós-Abolição[editar]

Apesar da abolição, a questão da indenização aos antigos proprietários persistiu. Em 1890, o Ministro da Fazenda Rui Barbosa ordenou a queima de documentos relacionados à escravidão. O "Livro da Liberdade", criado pela Câmara, permanece como documento histórico desse período.

Uma figura que representa a longevidade do impacto da escravidão foi Maria do Carmo Jerônimo (Carmo de Minas, 5 de março de 1871 — Itajubá, 14 de junho de 2000), ex-escravizada apontada por diversas fontes como a "última escravizada do Brasil" e uma das pessoas mais longevas já registradas. Libertada com a abolição, trabalhou por cerca de 60 anos para a família do historiador Armelim Guimarães. Sua idade (estimada entre 126 e 129 anos) não pôde ser comprovada por falta de registro civil de nascimento, o que a impediu de figurar no Guinness Book.[3]

Notas[editar]

  1. As estimativas de população escrava (1825–1876) são compiladas das obras de referência; os números específicos devem ser conferidos com as fontes primárias.

Referências[editar]

  1. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 168. O Município de Itajubá. 1915, p. 48.
  2. 2,0 2,1 Comarca de Itajubá 1872–2022. 2022, p. 86. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 168.
  3. "Maria do Carmo Gerônimo" (Wikipédia, com base em registros de batismo); "Ex-escrava mineira já havia pleiteado o título de mais velha do país", Estado de Minas, 19 mai. 2011.